20 fevereiro 2014

Opinião: Mataram a Cotovia (Harper Lee)

Mataram a Cotovia de Harper Lee
Editora: Relógio d'Água (2012)
Formato: Capa mole | 340 páginas
Géneros: Ficção histórica
Descrição (GR): "Durante os anos da Depressão, Atticus Finch, um advogado viúvo de Maycomb, uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, recebe a dura tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de violar uma jovem branca. Através do olhar curioso e rebelde de uma criança, Harper Lee descreve-nos o dia-a-dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito e o racismo caracterizam as relações humanas, revelando-nos, ao mesmo tempo, o processo de crescimento, aprendizagem e descoberta do mundo típicos da infância. Recentemente, alguns dos mais importantes livreiros norte-americanos atribuíram grande destaque ao livro, ao elegerem-no como o melhor romance do século XX."
Nunca sei o que dizer quando gosto de um livro. E quando se trata de um livro que é considerado um clássico, há ainda a dificuldade acrescida de podermos ter uma interpretação "errada" ou de darmos uma opinião pouco popular ou pouco erudita.

Por isso decidi que vou apenas escrever sobre o que eu retirei desta obra; desta história. Ou seja, esta será uma opinião completamente pessoal e subjetiva. Não irei fazer conjeturas acerca do valor literário deste livro ou sobre qual foi a mensagem que a autora quis passar porque não sou nem especialista na matéria nem a autora. Por isso vou apenas escrever sobre aquilo que retirei da história.

Jean Louise Finch é uma jovem como qualquer outra. Vive com a família numa pequena vila no sul dos Estados Unidos. A família não é pobre nem é rica. É remediada. O pai, Atticus, é um procurador. Jean Louise, também apelidada de "Scout" tem uma infância igual à de tantas outras crianças das classes trabalhadoras nos anos 30 do século XX. Uma vida algo difícil devido à depressão. Uma vida em que a moralidade social ditava, tal como atualmente, como as pessoas deviam pensar e tratar-se umas às outras.

Mataram a Cotovia acompanha a jornada de crescimento de Scout, a forma como começa a compreender as subtilezas da vida em sociedade. Como perde, de certa forma, a sua inocência na maneira de pensar quando é confrontada com a "lógica" ilógica da regras sociais.

Penso que esta obra é, como tantas outras, uma obra sobre a natureza humana. Certamente que se centra muito na mentalidade racista que persistia (e persiste ainda) nos Estados Unidos, uma vez que um dos acontecimentos mais marcantes do livro é o julgamento de um homem de cor, acusado de violar uma mulher branca. Scout e o seu irmão Jem aprendem muito acerca de como as pessoas se veem umas às outras e como a descriminação cega pode custar a hipótese de uma vida decente e mesmo a vida às pessoas.

Mas penso que esta obra não se limita apenas a denunciar esta vertente da sociedade. Penso que aponta as falhas desta num sentido mais geral, que denuncia as barreiras imaginárias sociais e "morais" e que fazem com que as pessoas tratem outros de forma diferente: a cor da pele, a classe social, a educação e mesmo o temperamento (aqui estou a pensar em Boo Radley, também muito maltratado pela sociedade, tanto que se tornou um eremita).

O livro mostra-nos que não somos assim (Scout, Jem e Dill imitam os adultos mas não têm noção do quão injustos estão a ser), mas que nos tornamos assim. Que a educação social é repressiva e nos molda de forma a perpetuarmos a forma como vemos o mundo. Até Calpurnia achava que devia uma deferência especial ao patrão e aos seus filhos.

Por outro lado penso que o livro também nos mostra que as pessoas, apesar de terem comportamentos errados não são completos vilões. A maioria das personagens secundárias, aquelas que no fundo são racistas e intolerantes não são por isso pessoas horrorosas. Apenas condicionadas pela sua educação e sem se conseguirem libertar da sua maneira de pensar; mas muitas sabem, no fundo, que estão erradas.

O livro não cai em extremos. A autora poderia ter descrito os habitantes de Maycomb como monstros racistas, mas no fundo, como já disse anteriormente, são pessoas assustadoramente normais. E todas elas (até mesmo as pessoas de cor) contribuem para a perpetuação do racismo.

Mataram a Cotovia é um grito contra a intolerância em geral, em todas as suas formas contra a forma como nos mantemos confinados numa sociedade com a qual discordamos. 

Podia falar sobre a narrativa, que é simples e fácil de seguir, com uma linguagem tipicamente sulista (penso eu), e sem floreados. Podia falar sobre como a narrativa de Scout por vezes parece demasiado adulto para os seus sete anos. Mas isso não importa, porque a força da história faz com que esses pormenores sejam insignificantes, mesmo que fossem defeitos e não formas de adicionar encanto ao livro. 

Em suma, gostei. E é por isso que não estou a fazer assim muito sentido.

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